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Casa na praia vale a pena?

Prefere alugar essa mansão em Miami nas férias ou comprar uma casa em Mongaguá para passar o fim de ano? Custo de oportunidade ajuda a decidir

Ter a casa própria é o primeiro grande desejo de um grande número de pessoas, independentemente de ele ser realizável ou não. Ter uma casa de veraneio, uma casa a praia ou no campo, deve ser o segundo maior sonho. Essa conclusão é minha, não está em pesquisa nem nada do tipo, mas arrisco a dizer que é um pensamento generalizado, principalmente entre os brasileiros da classe média que viram sua renda aumentar – e a possibilidade de comprar imóveis ficar cada vez mais perto.

Se o primeiro desejo demonstra um pensamento correto em torno da construção de um patrimônio, o segundo aponta para um desperdício de dinheiro que ignora completamente uma coisa que os economistas chamam de custo de oportunidade. Em resumo, esse conceito considera a vantagem de uma escolha sobre a outra. Esse custo tem a ver, de certa forma, com o preço de uma casa, mas também inclui na conta todas as outras opções abandonadas em prol da primeira escolha.

Meus pais construíram uma casa no litoral de São Paulo, após vários anos de trabalho duro, para onde viajávamos nos finais de ano e em poucos feriados. Pouparam algum dinheiro na época da inflação descontrolada do começo dos anos 1990 e deram entrada em um terreno. O material foi comprado aos poucos, nos anos seguintes, e a casa lentamente tomou forma. Conforme o tempo foi passando – e a situação financeira da família piorou –, a casa foi ficando de lado até chegar um tempo em que ela ficava fechada.

O custo de oportunidade dessa escolha foi altíssimo. Era preciso deixar de fazer alguma coisa para ter a casa. Era preciso tirar o dinheiro da poupança para construir. O resultado é que o uso, até o momento em que meu pai decidiu se mudar para lá, alguns anos atrás, era muito pequeno perto do valor investido. A mudança dele se deu, inclusive, após a casa ser invadida por assaltantes que levaram alguns eletrodomésticos velhos que meus pais mantinham por lá.

O que estou querendo dizer com isso? Que ter um segundo imóvel, para lazer aos finais de semana, não compensa. Essa conta é negativa para a compra da casa na praia (ou no campo, ou em Marte), em quase todos os casos.

Uma reportagem do site InfoMoney diz que “ao considerar comprar uma casa na praia, além do valor do imóvel e de uma possível reforma, é preciso avaliar também os gastos com IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), contas de água, luz, gás, segurança, manutenção, condomínio – em alguns casos – e faxina.”

A comparação, em termos anuais, demonstra a diferença. “Considerando um imóvel de R$ 550 mil [o preço é de um apartamento de médio padrão, perto da praia em cidades como Santos ou Caraguatatuba], com condomínio de R$ 600, por exemplo, tem custo anual de R$ 62.590”, mostra o cálculo. O valor leva em conta até impostos – e considera-se, para demonstração, que o imóvel já tenha sido quitado.

“Uma família que opte por se hospedar em hotéis, utilizando dois quartos [para casal com filhos], com  um custo médio de diária de R$ 600 e viaje, no total, 30 dias por ano,  terá um gasto anual de R$ 36 mil, ou seja, R$ 26.590 a menos que se a família decidisse comprar uma casa na praia.”

É aí que o custo de oportunidade aparece: além de ser mais cara, ter uma casa na praia implica em abrir mão de viagens para quaisquer outros lugares. As férias serão sempre na mesma casa, com visitas sempre à mesma praia – e o mesmo trânsito intenso para descer a serra do litoral de São Paulo, no caso de quem curte a costa paulista.

Um texto do site Enriquecimento Total diz que “a casa de veraneio será uma fonte a mais de despesas desnecessárias”, a não ser que o proprietário seja um investidor especializado em especulação imobiliária. Não creio que esse seja o caso da maior parte dos trabalhadores.

E costuma-se esquecer de que não só a casa custa muito, como também é preciso mobiliá-la e realizar as devidas manutenções. “A aquisição em si imobiliza uma grande soma de dinheiro que poderia estar rendendo juros sobre juros”, diz o site.

A dica é: quem consegue comprar uma casa na praia pode se planejar e investir o dinheiro, ganhando juros sobre ele, que pode ser usado anualmente para as férias merecidas com a família. Vale guardar para alugar uma casa em frente ao mar, para reservar quarto em um hotel no Nordeste, para curtir um SPA relaxante no interior, para pagar os albergues em meio a um mochilão… Enfim, deixar de comprar uma casa na praia significa optar pelo custo de oportunidade de ter várias alternativas de viagem, nas quais a preocupação maior será a de decidir para onde ir.

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Valor do aluguel: a conta

O preço dos imóveis no Brasil subiu de forma tão intensa que vem causando algumas distorções no mercado a ponto de acabar com qualquer consenso sobre a maneira mais interessante de usufruir de um imóvel. O dilema de comprar outro imóvel ou morar de aluguel atormenta quem busca uma casa, assim como para quem investe o problema é entre a renda da locação ou a valorização do preços do bem mesmo com os juros de financiamento. Falei sobre o assunto no post anterior do Chega de Dívida.

A relação saudável entre preço de venda e preço de locação (no mundo ideal) é aquela em que tanto faz para o morador comprar a casa ou pagar um aluguel apenas para usufruir o bem. Isso não existe. O que existe são tempos em que compensa alugar ou em que vale mais a pena comprar.

O economista Marcelo D’Agosto, do blog O Consultor Financeiro, escreve que “atualmente parece fazer mais sentido alugar do que comprar. No entanto, a ampla disponibilidade de financiamento e a perspectiva de valorização contínua dos imóveis estimula os novos compradores a pagar preços cada vez mais altos pelos imóveis”. Ou seja, tem gente que continua financiando imóveis sem refletir se o preço é alto ou não – acreditando simplesmente que ainda há espaço para subir mais.

O blog Valores Reais traz uma conta mostrando uma relação entre valor de venda e aluguel anual. “Você pagaria de aluguel anual o total de R$ 5700 por um imóvel que esta na faixa de preço de venda de R$ 100000 no mercado imobiliário no momento?”. O preço do imóvel dividido pelo valor da locação, no exemplo, é 17,5. Segundo o texto, “quanto mais alto é o valor da razão (R), mais faz sentido alugar. O normal seria um valor R = 10, que pode ser considerado um grande negócio para quem quer comprar um imóvel”.

Usando esta conta, retomo o exemplo da quitinete de 30 m² e R$ 180 mil, na região da Barra Funda, em São Paulo. O aluguel ficaria na casa dos R$ 1000 (ou R$ 12 mil anuais). A taxa de retorno é dada por 180000/12000=15.

Para inquilinos, o valor está alto, mas compensa mais ficar neste imóvel pagando aluguel do que eventualmente comprá-lo. Para proprietários, a compra não só é desaconselhável como a meta de alugar representa prejuízo.

Comprar para alugar, hoje em dia, significa ter prejuízo por causa das taxas e impostos do imóvel e dos juros do contrato de financiamento

Eu que queria comprar outro imóvel para alugar seria traído pelos juros. Se os atuais preços de venda das casas e apartamento estão altos e vale mais a pena alugar, significa que para o dono do imóvel ficam os ônus das taxas e de impostos. O site InfoMoney traz uma lista de custos escondidos que os compradores só lembram na hora de fechar o negócio.

Além disso, há os custos de reforma e a renda zero dos momentos em que o imóvel fica vazio. Nada disso é compensado pelo aluguel que um inquilino pagaria, simplesmente porque os preços estão abaixo do custo que o comprador teria que desembolsar para comprar a propriedade – e é aqui que entram as altas taxas de juros dos financiamentos e o prazo longuíssimo dos contratos, de 30 anos (360 meses).

A vantagem é que eu não teria preocupação para arranjar um teto: minha avó mora em uma casa grande (de 90 m²) que, por força das circunstâncias familiares, havia passado por uma reforma e virado duas casas menores, de 45m² cada uma. Mas isso não significa que eu deixaria de ter contas – dividir uma moradia representa dividir todos os custos, incluindo água, luz e comida.

Colocar tudo na ponta do lápis mostrou que era inegável a vantagem de não ter mais que pagar aluguel. Além das contas mensais, há uma contribuição voluntária à vózinha, a título de compensação pela saída do inquilino anterior, que significava alguma renda a ela. No fim das contas, ela não só não perdeu essa renda como ganhou uma companhia querida (e olha que eu sou modesto, hein).

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Comprando outra casa

Comprar a casa própria é um sonho que muitos gostariam de realizar, e alguns, de fato, conseguem. Vender uma casa é coisa que poucos gostam, porque é uma sensação visível de que um patrimônio seu está se esvaindo. Comprar outra casa, então, é ainda mais complexo. Quem vende um imóvel tem como maior preocupação o dinheiro acabar de uma hora para outra. O maior vilão é o Imposto de Renda.

Quem vende um imóvel que se valorizou ao longo do tempo tem a seu favor um efeito chamado ganho de capital. Se um apartamento valia R$ 100 mil na hora da compra e agora vale R$ 180 mil, a Receita Federal cobra imposto sobre os R$ 80 mil da valorização. A taxa para imóveis é de 15%, mas está isento o vendedor que usar o dinheiro para comprar outra casa em um período de até seis meses a contar da data da venda. É o que explica a jornalista especializada em finanças Sophia Camargo, em seu blog.

O objetivo do fisco é simples: evitar especulação imobiliária, ou seja, tributar somente quem vende imóveis para embolsar o lucro. Esses pagam imposto. O proprietário que só quer ter uma casinha maior pode, sim, vender uma e comprar outra em um semestre sem sentir a mordida. A medida é interessante porque facilita os negócios entre proprietários – e me parece um justo incentivo a quem não está visando somente ao lucro, mas uma moradia.

Mesmo assim, surgiu a preocupação: os imóveis estão caros e eu não sei onde achar outro apartamento por um bom preço. Como já contei no Chega de Dívida, pensei em alugar meu apartamento antes de vendê-lo. Uma alternativa seria aplicar esse dinheiro em um imóvel numa região de grande liquidez de aluguel – condomínios simples, em áreas próximas ao centro, costumam alugar rapidamente.

Rodei um pedaço da zona norte, da zona oeste e do centro de São Paulo buscando um campeão de locação: apartamento de dois quartos, de 50 metros quadrados, com condomínio barato. Mais procurado do que esse, só quitinetes para estudantes em bairros onde há universidades. Mas a conta não fechava.

Eu vendi o meu apartamento com dívida remanescente no banco, cujo saldo foi quitado no momento da venda, com pagamento à vista pelo novo dono. Dado o fato, eu veria no bolso pouco mais da metade do preço da venda, do qual ainda seriam descontadas as taxas, os impostos e a corretagem da imobiliária (em torno de 10% do valor total). Considerando o total que eu havia desembolsado até então pelo imóvel, o lucro bateu na casa dos 250% – o que é uma valorização espetacular.

Mesmo assim, esse dinheiro não seria suficiente para comprar outro imóvel do mesmo padrão do meu. E há pesquisas ainda mostrando que não há bolha imobiliária, como esta da FGV divulgada pelo portal Exame. Mesmo assim, os preços estão muito acima do razoável há meses.

Além dos preços altos, havia outro agravante: eu tinha separado uma parte do dinheiro da venda para quitar dívidas, entre elas a da faculdade e da mudança que fiz para a casa da minha avó (casos que eu conto mais adiante). Sem falar no carro para quitar. Minha estratégia em todos os casos será a de devolver aos poucos esses valores para restaurar o patrimônio alcançado com a venda do apartamento.

Só havia condições financeiras para dar entrada em uma nova casa, com parte do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), e financiar a diferença.

Veja um exemplo: uma quitinete de 30 m², na região da Barra Funda, estava valendo R$ 180 mil, com aluguel na casa dos R$ 1.000. Eu daria R$ 40 mil de FGTS, mais R$ 36 mil de entrada (do bolso), e financiaria outros R$ 104 mil em 30 anos (360 meses). Pela simulação, a parcela ficaria na casa dos R$ 1000.

Mas o valor da parcela, nesta hora, deve ser o menos importante. O apartamento (dos mais em conta que eu achei, diga-se de passagem), tem uma relação entre o preço por metro quadrado altíssima (R$ 6000 cada m²). E a relação do aluguel está irrisória: o valor mensal da casa para o locatário (o dono, que busca renda de aluguel) representa 0,55% ao mês sobre o valor da compra da casa (1000/180000=0,0055, ou 0,55%). A poupança rende aproximadamente isso, sem precisar pagar nenhuma taxa imobiliária ou imposto de renda. Ou seja, não compensava.

Nesse cenário, talvez fosse preferível pagar o IR para o leão. Passei mais de mês refletindo sobre como seria ter um novo imóvel quando surgiu outro alívio. Uma isenção se aplicaria ao meu caso: sendo o único imóvel de minha propriedade e, também, única venda nos últimos cinco anos, o ganho de capital é isento.

É o que diz um compilado de respostas com o tira-dúvida sobre o IR, publicado no site IG Economia. “Alienação, por valor igual ou inferior a R$ 440 mil, do único bem imóvel que o titular possua está isenta de tributação desde que não tenha efetuado, nos últimos cinco anos, outra alienação de imóvel.”

Eu precisaria comprar outro apartamento? Não. Deveria investir o dinheiro? Sim. Pagar as dívidas com mais calma e menos afobação? Com certeza. Falta uma coisa: não mexer mais no dinheiro, montar uma estratégia de investimento e ir aprender qual o melhor investimento para o meu caso.

Para quem quer ver a resposta da Sophia Camargo à dúvida sobre imóveis pode clicar aqui: “O que é que eu faço, Sophia?”

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Planejando a reforma

A reforma de uma casa costuma custar 20% do valor do imóvel, como atestam alguns especialistas em imóveis e decoração. Já contei aqui no Chega de Dívida que uma fatia do meu endividamento foi para arcar com esses custos escondidos da mudança quando me mudei para o apartamento. Mas se a venda da casa trouxe um alívio para o bolso porque as pesadas parcelas do financiamento e do condomínio deixariam de existir, ela trouxe outro problema: era preciso achar outro lugar onde morar.

E, mais do que isso, seria preciso arcar com mais uma reforma. Minha avó tem um imóvel que é dividido em duas casas. Uma casa grande que, após uma reforma, havia virado duas residências menores, de quarto-e-cozinha com uns 40 m2 cada uma. Um destes espaços era alugado e ela passou a me acomodar após a saída do inquilino. Eu precisaria “dar um tapa” na casa antes de entrar.

Mesmo que eu estivesse ainda resolvendo as dívidas que haviam ficado para trás, entraria mais um gasto a partir de então. Por “tapa”, leia-se reforma no banheiro e na cozinha, e pelo menos uma demão de tinta na sala e no quarto. Dessa vez, tudo seria milimetricamente planejado. Essa é a regra de ouro para qualquer gasto.

“A primeira tarefa antes de iniciar uma reforma é o planejamento. Tenha claro aquilo que vai fazer e quanto pode gastar, pois as tentações ao longo da reforma são muitas, e a empolgação pode transformar uma simples reforma em uma obra interminável.” É o que ensina esse texto do site Bem Simples.

Na mínima das reformas, o banheiro deveria ser aumentado e a cozinha precisaria de uma nova pia. O trabalho, se ficasse só nisso, seria um erro porque a casa, já antiga e com alguns problemas de encanamento, pedia uma arrumação nas partes molhadas. Decidi integrar a cozinha à sala em um ambiente único, e usar o espaço da antiga cozinha como banheiro – e, por consequência, aproveitar o antigo banheiro como área de serviço. Eu ganharia um cômodo a mais e um ambiente mais amplo.

Meu mote foi quebrar o mínimo possível e reaproveitar o que eu conseguisse. “Nem sempre reformar o ambiente significa quebra-quebra. É importante saber quando é realmente necessário trocar o piso, por exemplo”, diz o Bem Simples. Tirei uma parede da sala para torná-la um ambiente único com a cozinha e fechei a antiga cozinha para fazer o banheiro.

Louças de banheiro foram substituídas – e o material foi racionalizado para dar criatividade: pra que usar azulejos em todo o banheiro se a parede que molha é só a do box? Azulejo só lá dentro. Pra que revestir a cozinha toda se a área que engordura ou molha é só perto da pia e do fogão? Racionalizei ali também.

E mais do que ter o projeto em mãos, era ideal saber quanto isso custaria antes mesmo de começar a obra. É o que diz este texto do site Exame.com: “Antes de definir quais reparos serão feitos, é essencial listar os gastos previstos, para assegurar que o projeto seja condizente com orçamento disponível e evitar paralisações nas obras por motivos financeiros. Mudanças no decorrer da reforma atrasam, e muito, a entrega.”

Mas como ter, de início, uma ideia mínima? O site ClickReforma tem uma calculadora interessante para avaliar o preço médio da reforma a partir do custo da construção. Minha cara era popular e não tinha mais do que 40 m² – sendo que destes, só metade teria uma reforma de fato. Pela conta da calculadora, eu gastaria quase R$ 12 mil, tendo o preço médio de R$ 600 cada metro quadrado reformado.

O pedreiro fechou o valor da mão de obra pelo projeto todo, e não por dia – o que me deu mais segurança na conclusão do trabalho. E os materiais, por serem pagos à vista, tiveram bons descontos. O valor final ficou abaixo do previsto em, mais ou menos, uns R$ 2000.

Mas como as dívidas nunca acabam, eu precisava encontrar uma forma de devolver o dinheiro. Eu mesmo financiei minha reforma. Os juros foram maiores do que os do banco, mas quem vai ficar com mais dinheiro no fim das contas sou eu mesmo. Pelo parcelamento montado, até fevereiro ainda terei dívidas a pagar – mas a sensação é de que as coisas continuam andando bem para cumprir o prazo de um ano para acabar com as dívidas.

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Endividamento (des)confortável

O que faz você feliz: ter uma casa na praia que é usada poucas vezes no ano ou conseguir poupar para viajar pelo mundo todos os anos?

A população está perigosamente confortável com o consumo e com o endividamento. Sem um colchão de segurança, uma reserva de emergência, uma poupança ou qualquer outro nome que se queira dar para o popular dinheiro guardado, os consumidores continuam comprando apenas se preocupando com o valor da parcela. “Cabendo no bolso, tá valendo”, dizem.

Pesquisas corroboram com a visão de que o endividamento começa a entrar em níveis preocupantes. A Fecomercio-SP (federação dos lojistas e profissionais de serviços de São Paulo) diz que 53,5% das famílias tinham algum tipo de dívida em agosto. O número é o maior patamar do ano. Já a Boa Vista Serviços, empresa que administra o SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito), afirma que a classe C é a que mais possui consumidores com o nome sujo. Ao todo, 23% da classe média têm alguma restrição. No Brasil, 19% dos consumidores disseram estar sujos na praça.

Para o educador financeiro André Massaro, “mais da metade da população não consegue guardar dinheiro para comprar bens de alto valor à vista”. Ele se refere , principalmente, a itens de consumo como eletrodomésticos e carros, mas a inexistência do esforço poupador se estende à compra da casa própria também. “As pessoas estão perigosamente confortáveis com o endividamento.”

Massaro, que é especialista em finanças e dá palestras e cursos com sua empresa, a MoneyFit, abordou o tema da relação entre dinheiro e felicidade durante a ExpoMoney, maior feira de economia, investimentos, finanças e educação financeira do Brasil. O evento ocorreu entre a última quinta-feira (20) e sábado (21), em São Paulo.

“Vivemos um período ‘feliz’ financeiramente, com inflação sob controle, embora eu ainda a considere alta para os padrões internacionais; e juro nos menores patamares da história, apesar de a Selic a 7% também ser um valor altíssimo”, explica. “O cartão de crédito, que já foi item de luxo, está mais acessível do que nunca.”

A euforia e o otimismo somados à falta de planejamento e de educação financeira são uma bomba relógio às finanças das famílias. “Já há um cenário de estresse financeiro, e as dívidas só pioram a situação”, afirma.

Erros como manter investimentos que rendem juros baixos e pagar empréstimo pessoal são indícios de que falta mais informação ao consumidor. “As pessoas não falam sobre o assunto e caem em falhas lógicas, a tal da contabilidade mental, cometendo erros com o orçamento”, reforça. É comum famílias se desestruturarem por causa de dívidas – e por fala de diálogo e comprometimento coletivo relativo a isso.

E aí acaba a felicidade. “Perguntar se dinheiro compra felicidade é um clichê. Ele não compra. Mas ele é muito útil e necessário na nossa vida”, diz.

Um dos maiores erros, para Massaro, reside em não sabermos como quantificar nossos sonhos. “Tudo o que não se pode medir não se pode melhorar”, tampouco alcançar.

Outra falha está em achar que a propriedade, por si só, é uma felicidade plena. O questionamento é irrefutável: pra que ter uma casa na praia e manter altos gastos para usá-la poucos dias no ano? “Não vale mais a pena alugar uma? Ou quem sabe usar o dinheiro para uma viagem? Eliminar o desejo de propriedade traz nossa curva de felicidade mais para baixo”, afirma.

Isso significa que, para quem tem desejos palpáveis, mensuráveis e realistas, a felicidade custa menos. “O que vale é o usufruto”, conclui. Veja abaixo o que o Massaro tem a dizer sobre dívidas boas e dívidas ruins – e como usar a primeira e evitar a segunda:

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Casa própria V – Móveis ficam

Depois da cama, guarda-roupa foi o segundo que chegou ao apartamento. Mas não tinha como sair de lá porque era grande demais. Então ficou

Não quero olhar de forma pessimista, mas é fato: sempre uma boa notícia vem acompanhada de uma não tão boa. Terminei o financiamento dos móveis planejados em boa hora, no momento em que as contas mais pesaram no bolso. Mas agora que a casa está vendida, resta a pergunta do que fazer com os móveis?

O primeiro que chegou ao apartamento, logo depois do colchão, foi um guarda-roupa. Branco, com porta de correr, comprado em uma dessas grandes redes de móveis e decoração. Não foi barato na época, mas valeu a pena tê-lo parcelado em poucas vezes. Ele parecia justinho para o quarto de dormir e acomodava confortavelmente as roupas de um casal sem filhos.

Depois de montado, o primeiro susto: sobrou móvel e faltou quarto. Ele ficou grande demais e não caberia no mesmo cômodo da cama. Sem chilique, o transformei em um armário de escritório – enchi-o com meus livros, casacos e outras caixas.

Precisava, então, de um guarda-roupa de verdade. Namorava móveis planejados havia meses, mas eles não cabiam no orçamento. Mais do que vontade, era necessidade. A conta errada do outro guarda-roupa mostrava que o apartamento pedia móveis sob medida.

Assim foi: cozinha e quarto montados com prestações a perder de vista. Mais precisamente, 36 parcelas de R$ 400. O valor da mensalidade nem foi o que pesou na compra, mas a possibilidade de eu usar cheque – com meu nome sujo, nenhuma financeira aprovaria.

Hoje reconheço que essa é a coisa mais perigosa que um consumidor pode fazer. Financiar mais coisas, estando com o nome sujo devido a outra dívida e ainda pagar com cheque é tipo, sei lá, sadomasoquismo financeiro. Nem sei se o nome existe, mas que a prática é comum, ah é!

E a fabricante dos móveis topou fechar negócio. Tudo entregue direito, escolhido a dedo. E uma vantagem: com desconto de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) que o governo havia concedido na época para incentivar as vendas e “aquecer a economia”, como eles dizem. Se eu, endividado, parecia um bom pagador, quem poderia discordar que eu não pagaria?

E paguei. Claro que não é preciso dizer que também tive alguns cheques devolvidos, outros tantos que tiveram que ser reapresentados – e tudo isso tem custo na conta bancária, dadas as tarifas e outras multas que os bancos cobram por esse tipo de coisa. Mas, no fim, deu certo. E agora que acabou, eles ficam na casa.

Como eu já havia dito, o apartamento é pequeno e pede móveis sob medida. Onde mais eu iria colocá-los? Até o guarda-roupa é preferível que fique, porque uma vez desmontado, nunca mais remontado (pelo menos não por mim). A saída encontrada foi adicionar uma certa margem no valor do imóvel no quesito “pronto para morar”. O comprador adorou a ideia.

E eu mais ainda em poder terminar mais uma grande dívida. Apesar de achar os planejados um xodozinho, eles serão mais bem usados pelos novos donos.

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Casa própria IV – Condomínio atrasado

“E me pague os 14 meses de aluguel!”

Treze meses de condomínio atrasado e uma bolada a pagar de multa e juros. Quase superei o Seu Madruga, que sempre ficou devendo 14 meses de aluguel. Ao fechar o negócio para a venda do apartamento, era necessário deixar o imóvel “um brinco”, inclusive no quesito de contas em dia – e o condomínio havia sido um dos primeiros que eu deixara de pagar quando a situação apertou.

A mensalidade era pequena: R$ 200 por apartamento, em um condomínio com bons equipamentos de lazer, como piscina, salão fitness, salão de festa, churrasqueira com espaço gourmet, brinquedoteca, quadra de futebol, minipista de skate, etc. A área comum estava sempre bem cuidada e o prédio ainda estava novinho em folha, sem grandes custos aos moradores.

Segundo o site Finanças Práticas, esses extras costumam fazer grande efeito na conta. O baixo custo das despesas condominiais explica-se pelo número de unidades do rateio: três torres com 18 andares e seis apartamentos por andar – 324 condôminos. O prédio era um achado na região, principalmente da ótica do preço do condomínio.

Mas o intuito deste texto não é vender o peixe – nem o apartamento –, mas mostrar que uma conta que às vezes ignoramos pode se tornar um problema no longo prazo. Ao contrário das faturas de cartão de crédito ou do cheque especial, que têm juros estratosféricos; do financiamento de um veículo, cujos atrasos podem acabar em retomada do bem; ou mesmo de um carnê de loja que pode sujar o nome; o condomínio costuma ser relegado ao posto de primeira conta que eu posso atrasar.

Nada mais enganoso. Pela lei, condomínio atrasado deve gerar impedimentos aos devedores e, ao atrasadinho, fica uma enorme conta a pagar no caso de longa displicência com as parcelas. Eu mesmo não tinha onde arranjar R$ 3000 de uma hora pra outra para quitar a dívida.

Reportagem do site UOL mostra que, em maio deste ano, o número de ações condominiais quase dobrou em relação a abril. O Secovi-SP (sindicato da habitação) atribui a um quadro de “inadimplência geral” o número.

A melhor saída, como sempre orientam os educadores financeiros, é renegociar. Em conversa direta com a administradora do condomínio, a proposta era de que minha dívida poderia ser parcelada em diversas prestações. Mas, para não atrasar a negociação com o novo comprador da minha casa, consegui o abatimento de quase todas as multas e juros. No fim das contas, consegui pagar praticamente o bruto do que eu devia à empresa.

Mas o proprietário não deve se enganar, como reforça o Finanças Práticas. “O que parece um detalhe pode mesmo se tornar um peso considerável no seu bolso! Portanto, se for financiar a compra do sonhado imóvel, lembre-se que, além das parcelas, terá de arcar com o valor mensal do condomínio. Faça as contas para ter certeza de que a decisão vai caber no seu orçamento.”

Se tem dúvidas sobre condomínio, o UOL tem um site especial com dezenas de perguntas e respostas de direitos e deveres dos condôminos.

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